Ao salvar Aécio, o PT perde a oportunidade de mostrar que aprendeu com os erros do passado


Por Joaquim de Carvalho - O PT é alvo de uma das maiores campanhas de perseguição já desencadeadas na democracia brasileira. Fazem com o partido o mesmo que foi feito com Getúlio Vargas, João Goulart e, em certa medida, também com Leonel Brizola, e pelas mesmas razões: para destruir lideranças políticas conectadas aos interesses das classes populares.


O PT deve seu crescimento a esse eleitor anônimo que enxergou no partido seu representante legítimo.

Lula parece ter compreensão nítida desse fenômeno e, por isso, quando pressionado, se aproxima mais daqueles que veem nele o líder efetivo.

Eu era repórter do Jornal da Record, em 2005, quando estourou o escândalo do mensalão e cobria as viagens de Lula, na época presidente da república.

Quanto mais a imprensa batia no PT — e nele particularmente — por causa do mensalão, mais Lula viajava pelo país, em eventos do governo.


Raramente dava entrevista.

Mas fazia discurso, muito discurso, com uma interlocução direta com o eleitor. Nós éramos obrigados a transmitir a fala do presidente, por interesse jornalístico.

Estratégia perfeita.

Uma vez, no lançamento da obra de duplicação de uma estrada no Rio Grande do Sul, me aproximei dele e pedi: “Presidente, me concede uma entrevista?”

Lula foi simpático, mas não deu entrevista. Olhou para as pessoas que estavam no alto de um vale, o aplaudindo.

“Deixa primeiro eu falar com meu povo”,disse.


Subiu o vale, quase escorregando, e, para incômodo de seguranças, se aproximou dos manifestantes. Abraçava e era abraçado. Eu vi que ele tirava desse contato sua força política. Parecia verdadeiro.

Faço esse relato para lembrar que, ao mesmo tempo em que se agiganta na aproximação com o povo, o PT diminui quando tenta fazer a política no velho estilo, se unindo a caciques para manobras de bastidores.

É o que está acontecendo na questão de Aécio.

Claro que há um interesse de que, fortalecendo o poder político, se consiga se contrapor à campanha de perseguição desencadeada por setores do Judiciários, especialmente os do sul do país.

No passado, quando estourou o escândalo do Banestado, havia centenas de políticos graúdos do PSDB apanhados na rede de investigação da Polícia Federal e de procuradores da república. Havia também dois ou três petistas ou pessoas ligadas aos petistas. Na época governo, o PT deu ouvidos para quem achava que era melhor tirar o pé do acelerador e a investigação do Banestado foi minguando.


Hoje, tem políticos petistas importantes que se arrependem dessa estratégia. O escândalo do Banestado tinha força destruir lideranças importantes do PSDB, hoje os maiores algozes do PT.

Na mesma época, a Globo estava em dificuldades, e o governo federal ajudou a salvar a rede de televisão, com recursos do BNDES, com um programa de parcelamento de tributos e não acelerando no sentido de fazer encolher a emissora que, anos depois, estaria na linha de frente para destruir o partido.

Políticos petistas combativos de Minas Gerais descobriram a gênese do mensalão de Brasília. Estava lá no Estado, no governo tucano de Eduardo Azeredo. Houve a denúncia, mas não na intensidade que os fatos mereciam.

O mensalão mineiro foi apagando enquanto, anos depois, o mensalão de Brasilia seria retomado com força para incinerar lideranças do partido.

A Lista de Furnas é um capítulo à parte.

Com as informações do lobista Nílton Monteiro, foi revelado um dos grandes esquemas de corrupção de Aécio Neves, mas o PT, que atuou na origem da revelação do escândalo, também tirou o pé do acelerador quando achou que a situação tinha melhorado para o partido no caso do mensalão de Brasília. Não tinha. Anos depois, sob aplausos de Aécio, os líderes do partido foram presos, mesmo sem prova de culpa.

O PT repete o erro agora.


Fazer a defesa de Aécio Neves com o argumento de que defende a Constituição pode custar caro. Aécio não parece dar valor a virtudes como lealdade e gratidão. Logo ele estará de volta para dizer que o PT é organização criminosa, não um partido político.

Se o PT quer defender a Constituição, deve deixar que o Supremo Tribunal Federal faça o que lhe é de direito: zelar pela Carta Maior.

Aécio é um problema da direita e é prudente deixar que os seus cuidem dele.

Aliar-se a aventureiros, como Temer e Aécio, no enfrentamento ao Supremo, neste momento, só serve para atrapalhar a verdadeira aliança do PT, com o povo excluído deste país.

É desse povo que vem a força do partido, como Lula sabe muito bem.

Comentários

  1. Artigo perfeito e que reflete exatamente o que pensa o eleitor brasileiro que quer um governo idôneo e do lado do povo.

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