Temer, Joesley, Aécio Neves, Geddel e cia. Por que não tem filme pra essa turma?


Em uma análise minuciosa, o crítico de cinema e diretor do site Cinema em Cena, Pablo Villaça expos elementos de manipulação que o filme "Polícia Federal – A Lei é para todos" implanta nos espectadores. "É um filme partidário, que não haja dúvida em relação a isso", decretou logo no início do vídeo, no ar em seu canal.


Seguiu, afirmando, que mesmo que a produção ou atores neguem, o longa metragem não consegue esconder suas intenções. "Qualquer um que tenha um mínimo de honestidade e conheça o básico de linguagem cinematográfica, percebe, claramente, os elementos de propaganda no filme", apontou.

Para ele, algumas decisões particulares na composição de certos personagens são "bastante sugestivas" – mesmo que se possa elogiar a atuação de seus intérpretes. "Este é um filme, obviamente, não anti-esquerda, mas anti-PT. Isso é óbvio", ressaltou.

Villaça lembrou de uma epígrafe presente no longa com uma citação de Joaquim Barbosa e, depois, falam que a corrupção chegou no Brasil em 1500 e dura até hoje. "Mas eles escolhem fazer um recorte, muito específico, desse mais de meio milênio de história", analisou.

"Polícia Federal" faz um apanhado de casos de corrupção na história do Brasil. "Ele joga os nomes, atravessando vários governos, de maneira rápida, breve. Só citando os nomes, sem citar partido, sem citar nada. Até que ele chega no Mensalão e fala que é 'o maior esquema de corrupção', já para e começa associar ao PT. Passa rapidinho pelos outros para chegar ao que interessa", relatou.


"É muito bom para se usar como exemplo de como um filme pode criar propaganda e manipular o espectador de maneira sutil", alertou o crítico de cinema.

Para Villaça, o filme recorre ao uso de lacunas como forma de preencher informações para o espectador. "Quando o Lula entra na história, um dos personagens fala assim: 'Isso é prova? Não, não é prova, mas é uma evidência' ou 'Você acha que isso é prova ou coincidência?'". Analisou ainda que, nessa parte, o filme apresenta "evidências dos personagens que não são evidências", com o mesmo peso de outros elementos mais "sólidos" mostrados antes. "É um tipo de maniqueísmo muito perigoso. De preencher essas lacunas através da identificação que se estabelece entre o personagem e o espectador", disse.

Em um dos momentos, retratam a escuta do grampo entre Lula e Dilma. "'Aí que tá a prova. É o que a gente precisava. Tá tudo aí. O complô para atrapalhar a Lava Jato, para proteger'. Ele (o personagem principal) faz uma série de elações, que quando você acabou de ouvir o áudio, vê que não tem nada disso na gravação", apontou Villaça, ponderando que como isso é dito por um dos protagonistas, "a tendência do espectador médio é dizer que 'é mesmo', sem questionar o valor, porque é uma figura de autoridade dentro do filme".

"Os personagens da Polícia Federal são tratados como heróis. São homens e mulheres de puro virtuosismo, pela verdade, que é inquestionável. Estão sempre em busca da verdade, dos fatos, 'doa a quem doer'", analisou dizendo que esse é um tipo de abordagem muito "perigosa". "Não existem tons de cinza. Os personagens do filme estão pretos ou brancos, no sentido de bem ou mal – do ponto de vista político de cores", disse.

Nesse roteiro, apenas os "heróis" tem sua história desenvolvida e são mostrados em situações cotidianas a afim de humanizar seus personagens. "Nós vemos o (Sergio) Moro, constantemente, em casa. Não no trabalho, em casa. Conversando com o filho ou com a esposa, cozinhando, então é um homem de família. Esse é um tipo de elemento sutil, mas que planta no espectador uma diferença para os 'vilões'", apontou o crítico de cinema.


Para Villaça, o filme vem com o propósito de levar o espectador para um dos lados. "As decisões do Ary Fontoura como ator são muito óbvias. Ele enxerga o personagem (Lula) como um vilão e ele assim o vive". Isso porque a caracterização do ator influi em pontos como em piadas, comuns do ex-presidente, que no filme são retratadas como falas agressivas ao invés de bem-humoradas: "Cadê o japonês da Federal? Não veio não?".

Além disso, o filme tenta "enobrecer e idealizar" personagens como o juiz de Curitiba, Sergio Moro. "Teve uma cena que eu ri no cinema. É hilária. Quando eles decidem a condução coercitiva, o Moro diz assim para os delegados: 'Temos que fazer de tudo para não constranger o ex-presidente'. Aliás, o filme defende mais o Moro do que o próprio Moro. Ele tenta ser mais realista que o rei", analisou.

No filme, eles trocam o termo "vazou o áudio", por uma citação de que o juiz Moro decidiu "liberar o áudio", em mais uma clara tentativa de justificar essa ação. "É aí que você percebe o partidarismo do filme. Aí que você percebe que é um filme que tem um ponto de vista e ele vai defender esse ponto de vista a todo custo, mesmo que não seja honesto com a sua própria proposta. Esse tipo de decisão de uso de expressão e escolha do verbo, é muito revelador sobre o filme", concluiu.

Pablo Villaça ponderou, ao final, que se fosse apenas o lado político-partidário, por si só, não seria um problema, já que a "propaganda faz parte do cinema desde o início". "O que incomoda é que haja negação de que o filme é propaganda e que essa propaganda deixe, simplesmente, de ser maniqueísta e chegue a beirar o caricatural. Porque deixa de ser propaganda e se torna ridículo. E o Lula vivido pelo Ary Fontoura é uma imensa caricatura", finalizou.


Em uma última observação, lembrou que: "Em vários momentos do filme, vários personagens dizem: 'Não! Nós não estamos ligados a nenhum partido, nossos interesses são a verdade e os fatos. Conduzam esses fatos onde conduzirem'. Várias vezes. Eu acho muito sintomático que o próprio filme sinta a necessidade de, repetidas vezes, dizer que não tem lado".

Enquanto a isso a turma que comanda o Brasil nada sofre pelo lado do judiciário.

Com informações da Revista Fórum.

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