Hoje é mais um dia em que Temer estupra a democracia na Câmara enquanto o povo assiste bestializado.


Por Kiko Nogueira - ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS

Aristides Lobo é autor de uma frase definitiva o destino nacional.


Numa carta, escreveu sobre o 15 de novembro de 1889 e a proclamação da República: “O povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava”.

Mais de um século depois, Michel Temer está confiante, com toda razão, em uma vitória na votação da segunda denúncia contra ele na Câmara.

Ninguém normal aposta que o número mínimo de 342 deputados vai aceitar as acusações e votar por seu afastamento.

A dúvida é apenas se ele vai repetir os 263 da primeira vez em agosto. Os analistas então medirão a pressão do sujeito para ver se ele está mais “forte” ou mais “fraco”. 

Um cidadão com popularidade na margem de erro vai se manter até 2018 amparado na distribuição de dinheiro aos parlamentares, na tibieza da oposição e na ausência de pressão popular.


Temer é ajudado pelo fato de que seu sucessor natural, Rodrigo Maia, veio da mesma lata de lixo. As conspirações de Maia não têm sucesso porque ele é o chefe escarrado. Para que mudar?

A soma das negociações políticas no Congresso pode atingir R$ 32,1 bilhões. Michel distribuiu emendas e ofereceu os cargos que tinha e não tinha. Voltou a atender a pedidos de bancadas, em especial a ruralista.

As “flechadas” de Janot foram desmoralizadas por ele mesmo, um deslumbrado falastrão que passou os últimos dias na PGR se defendendo das bordoadas de Gilmar Mendes numa luta na lama.

O máximo que a oposição articulou foi um esvaziamento da sessão para pressionar por um adiamento. O plano é deixar Michel sangrar. Ou seja, não existe plano.

Mas é com as ruas que MT conta de fato.

Em agosto, apenas um cidadão apareceu no Congresso com uma bandeira na mão. O desprezo a Michel não se traduz em mobilização.

Na noite de terça, na Candelária, havia meia dúzia de artistas convocados por Paula Lavigne que foram dispersados em 2 minutos por jatos d’água e voltaram ao Leblon.

Os movimentos sociais sumiram. As panelas da classe média estão onde Marisa Letícia sugeriu — e não há nada mais patético do que a esquerda cobrar qualquer atitude diferente.

Era o que os patos queriam? Sim, era exatamente isso. Quer algo diferente? Faça você mesmo.

Temer triunfará em sua nulidade perversa novamente — e nós vamos cumprir nossa vocação de assistir a tudo bestializados, que é o que fazemos de melhor.

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