“Despertei de um sono profundo”: a confissão de um ex-manifestoche


Por Bruno Gabriel Prates, advogado


A manipulação é sutil e nos dá um sentimento de engajamento, de luta, de abdicação por uma causa que não sabemos muito bem qual é. Escrevo desta forma, porque é assim que imagino que muitos outros brasileiros se sintam.

Não tenho por objetivo fazer uma análise legal de pontos técnicos que culminaram no impeachment, pois, mesmo sendo advogado, tal reflexão não me apetece e já foi feita por muitos outros entendidos e em muitos outros momentos. Aliás, opiniões não faltam, existe praticamente uma barraca de feira com ofertas de análises políticas, a torto e a direito, com posicionamentos que agradam às mais variadas vertentes.

Me proponho a refletir sobre o que é a manipulação, no sentido etimológico da questão e o quanto isso me despertou de um sono profundo. A manipulação na interpretação mais aberta da palavra se constitui em um ato, onde determinado indivíduo trata uma pessoa como se fosse um objeto, a fim de dominá-lo com facilidade.


Este tratamento é como uma redução ilegítima de uma pessoa a um objeto, com um interesse quase sádico.

Não sou um fiel incauto do antigo governo, nunca fui totalmente identificado com suas visões de mundo, nem pretendo levantar uma bandeira de defesa de uma presidente que já caiu, mas pretendo refletir sobre o instrumento da manipulação.

Eu, como muitos outros brasileiros que conheço, fui tomado por uma sanha de guerrilha, de combater a injustiça, a corrupção, de promover o crescimento de um país que já estava estagnado e acreditei nos crimes de responsabilidade que pareciam existir.

Não me proponho a analisar as pedaladas, além daquelas que víamos nos meios de comunicação, onde a Presidente andava com sua bicicleta e um segurança, por Brasília, geralmente aos finais de semana pela manhã.


Tendo por comprovada a existência do crime de responsabilidade, por assim dizer, deixemos que isto assim permaneça, mudar o discurso não muda os fatos.

Mas, voltando ao cerne da reflexão proposta, quero dizer do dia em que despertei para a manipulação. Este dia, tardio, foi o dia em que enxerguei que os movimentos de “liberdade” social já não mais lutavam por liberdade, pelo contrário, se calaram.

Foi o dia em que vi um Presidente liberar milhões intermináveis para propaganda, em atos muito semelhantes ao do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), para aprovar pacotes antipáticos à população, visto que são comprovadamente desnecessários e ser aplaudido pela grande mídia.

Um pouco antes deste dia de despertamento, me veio a ideia de onde estariam os organismos internacionais, as chancelas culturais diante de reformas que extinguem e retroagem direitos sociais históricos, bem como, qual é a razão para aceitarmos tão pacificamente o que tem ocorrido.

Neste momento pensei a respeito da manipulação existente através da linguagem, que pode difundir a verdade ou propagar a mentira. A linguagem manipuladora é sedutora e geralmente tem uma “ideia de efeito”.

A ideia de efeito que nos manipula hoje é a liberdade.


Quando os manipuladores (que são muitos, dentre eles, as grandes empresas de comunicação, bem como algumas vozes do poder legislativo, visto que o chefe do executivo é para o Brasil, o que o jiló é para uma criança, insosso e insípido), introduzem o discurso de que os atos de austeridade ora propostos são para alcançar a liberdade nacional, ante as dívidas externas, ante aos déficits, ante às desigualdades e para que se permita a liberdade dos cidadãos no amanhã, de negociar com o seu patrão, de se aposentar com melhores condições, de escolher seus melhores caminhos, o povo, como eu, ficamos intimados, sem exercer o nosso poder de crítica.

Uma pena que tantos serão como eu, em um dia, tarde da vida, descobrirão que fomos manipulados com liberdade, uma liberdade que na verdade nos tornou mais escravos e desiguais do que nunca.

Fica aqui o meu lamento, por mim e pelo Brasil.

Comentários

  1. Respeito seu lamento e suas desilusões, mas não as compreendo bem, pois que o mais flagrante do tão alardeado impeachment é que foi um golpe e dado por reles ladrões de conhecimento geral da nação. Mais que isso, no decorrer do tempo iniciado com o golpe até hoje, não houve um único ato legítimo ou legal. Todos os três Poderes da República agiram, fartamente e com o maior cinismo, fora da lei. Isto é mais que o suficiente para um advogado compreender a farsa toda engendrada por simples assaltantes dos cofres públicos e entender, se políticamente e como simples cidadão não o havia feito, que o governo do ex-presidente Lula foi o melhor de toda a história do Brasil, e isso reconhecido internacionalmente, por fatos e dados constatáveis, e que o governo da Presidente Dilma foi excelente se comparado a todos os outros antes de Lula, que se trata de uma pessoa honesta, séria, competente e que foi traída por um qualquer que casualmente tornou-se vice-presidente. Além desses fatos, tem-se o inegável estado de ilegalidade permanente, o que basta para um advogado entender e posicionar-se contra. E nao é só isso que você não conheceu. Ignora o que seja jiló, pois que este não é inodoro, nem insosso. É muito amargo, ainda que gostoso.

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    1. Tem gente muito burra nesse mundo. O articulista foi muito claro na intenção dele de destacar a manipulação. Ele não defendeu o governo anterior. E aí sempre aparecem as mulas pra repetir o discurso pro impeachment, mas que não vêem que tudo continua muito ruim.

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    2. Ceres Pascoal, fiquei com a impressão que você não leu o bruno.

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    3. Acho que a Ceres leu sim e corretamente. Disse ao Bruno o que precisava ser dito, porque se ele não assumir isso o seu "mea culpa" é falso ou incompleto.

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    4. Concordo que o governo Lula tenha sido o melhorzinho desde a ultima redemocratização. Pois o rapaz citou uma verdade, mesmo que não tenha explanado essa questão devidamente, é que o Brasil está estagnado há décadas, com apenas dois grandes ciclos de consumo - sendo o segundo no governo Lula. Agora, melhor governo da história do país é pegar pesado. Temos o segundo governo (eleito) de Getúlio, o pai do trabalhismo no Brasil. Quem criou a CLT e iniciou o desenvolvimento da indústria nacional, levando o país da 15ª economia industrial em menos de quatro décadas. Lula tem seus méritos, mas as alianças malditas empurradas por ele deixa a população ter todo o direito de se decepcionar. E infelizmente quem estava lá já era mais sujo que pau de galinheiro quando Lula resolveu dar confiança.

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  2. muitos que foram as ruas bater panelas, com certeza tem vergonha de assumir, por isso o grande motivo estão escondidos, não conseguem justificar a burrice que fizeram, entregar o brasil para uma organização criminosa, apoiados pela grande mídia, principalmente porque estão levando vantagens,quanto ao dr, tem meu respeito por reconhecer seu grande erro, que a maioria não tem coragem nem carate, obrigado pelo seu reconhecimento,

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  3. Desde criança ouço o velho provérbio de sabedoria popular " Não adianta chorar pelo leite derramado". Faço aqui uma sugestão, como se fosse uma faxina, um pano de chão pra limpar o leite derramado, vistam novamente as camisetas amarelas da CBF e junte-se nesta luta pela reconquista da Democracia, da Soberania do Pais, dos direitos Sociais básicos para qualquer ser humano. Com toda certeza serão bem vindos e abraçados como irmãos brasileiros. A humildade é uma virtude!!!!!

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  4. Vejo que os comentaristas , analizaram linda e corretamente a reflexão do articulista , e por isto os parabenizo !

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  5. Bruno, parabéns pelo depoimento. Muitos que se perceberam manipulados, querem fazer o que vc fez. Seja bem-vindo ao lado certo da história. O que está em jogo e muito maior do que PT ou PSDB. Vamos juntos!

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