Orlando Diniz preso hoje, pagava jornalistas da Globo em palestras pelo Senac-RJ


The Intercept - DE UM LADO, uma crise que já culminou com a demissão de pelo menos mil funcionários entre janeiro de 2016 e maio deste ano, mas vem sendo praticamente ignorada na grande imprensa brasileira. 


De outro, gastos milionários em publicidade e em palestras, com destaque para jornalistas e colunistas ligados ao maior conglomerado de comunicação do país, o Grupo Globo. Este é o contraditório retrato do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial do Rio de Janeiro (Senac-RJ), entidade cujo foco principal deveriam ser ações de educação profissional.

The Intercept Brasil teve acesso com exclusividade a um relatório de auditoria do Senac-RJ, elaborado entre janeiro e fevereiro deste ano, que coloca o dedo na ferida da gestão de Orlando Diniz, amigo e ex-vizinho no Leblon do ex-governador do Rio Sérgio Cabral. O documento está sendo analisado pelo Conselho Fiscal do Senac Nacional, que pode pedir intervenção na entidade local, caso as irregularidades sejam comprovadas. Diniz comanda com mão de ferro o Sistema Fecomércio-RJ, que, além do Senac-RJ, ainda tem sob suas asas o Serviço Social do Comércio (Sesc-RJ).


Para se ter uma ideia do poder financeiro que está nas mãos de Diniz, o empresário, que começou administrando um pequeno açougue em Copacabana do qual é sócio até hoje, tem sob seu controle, só no Senac-RJ, um orçamento que, no ano passado, chegou a mais de R$ 450 milhões, segundo o relatório da auditoria. É basicamente dinheiro público, vindo das chamadas contribuições parafiscais, uma porcentagem obrigatória de recursos que as empresas recolhem em cima de suas folhas de pagamento. No caso do Senac, o conceito básico é que os recursos sejam aplicados em atividades de capacitação profissional. O Sesc, entre outras funções, tem, entre suas principais características, o incentivo a atividades culturais.


Um dos principais pontos do documento, que tem 170 páginas e auditou o período de novembro de 2015 a novembro de 2016, são os “maciços” recursos voltados para publicidade no Senac-RJ, que levaram os técnicos responsáveis pela auditoria a pedir um “redimensionamento” dos gastos. Em 2012, por exemplo, a entidade destinou R$ 26,6 milhões para propaganda. Em 2015, os recursos dispararam para R$ 74,6 milhões (aumento de 179,6%). Em 2016, até novembro, último mês levantado, foram R$ 63,8 milhões.

Os gastos com publicidade e eventos (R$ 74,6 milhões) foram equivalentes a 83% daquilo que foi aplicado em suas função principal.

Em comparação, os auditores citaram que, em 2015, o Senac-RJ gastou R$ 89,9 milhões com ações de educação profissional, atividade-fim da entidade. Ou seja, os gastos com publicidade e eventos (R$ 74,6 milhões) foram equivalentes a 83% daquilo que foi aplicado em suas função principal.


Entre 2015 e 2016, chamaram especialmente a atenção dos auditores os altos valores repassados para a empresa P.I. Representações de Veículos Publicitários, Promoções e Marketing. Segundo o relatório, foram pagos, de forma adiantada, sem a prévia comprovação do serviço, R$ 91,1 milhões à firma, o que teria contribuído diretamente para a queda da reserva financeira do Senac-RJ nos últimos dois anos.
Palestras de Merval Pereira sobre Dilma

Além da publicidade, o relatório aponta para altos gastos do Senac-RJ com a realização de palestras. Dentro do tema, há um capítulo exclusivo que fala sobre a contratação de profissionais ligados ao Grupo Globo. Segundo os auditores, um total de R$ 2,979 milhões foi pago a jornalistas, colunistas e comentaristas em 2016. “Verificamos que a ligação dos prestadores de serviços com as Organizações Globo é uma das características singulares apresentadas com vistas a justificar a não observância do dever de licitar”, diz o documento, que dedicou um capítulo inteiro para pedir esclarecimentos da relação entre o Senac-RJ e o Grupo Globo.

O jornalista que recebeu mais pelas palestras, de acordo com o relatório, foi o colunista do jornal “O Globo” e da Globonews Merval Pereira. Ao todo, os auditores apontam gastos de R$ 375 mil pela participação dele no evento “Mapa do Comércio”, realizado em diversos municípios do Rio de Janeiro. Notas fiscais a que The Intercept Brasil teve acesso mostram que, por cada uma das palestras, Merval recebeu R$ 25 mil.

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