Aluno que atacou caravana de Lula diz amar escola criada pelo ex-presidente


Cláudia Motta, RBA e TVT - A Caravana Lula pelo Brasil deixou Santa Maria, na região central do Rio Grande do Sul, em direção a São Borja, no extremo oeste do estado. Depois de uma hora de percurso, fez uma parada em São Vicente do Sul. O município de pouco mais de 8 mil habitantes abriga um dos 11 campi do Instituto Federal Farroupilha, que atende 11 mil alunos de diversos municípios daquela região do estado.


Em rápido pronunciamento a pessoas que foram ao local para vê-lo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que os que o hostilizaram terça (20) em Santa Maria provavelmente adquiriram os tratores que usaram para protestar por meio do programa Mais Alimento, criado em 2008, para subsidiar a compra de máquinas e estimular a produção. “Preconceito sempre existiu, mas o que essa gente tem é ódio”, afirmou. E sugeriu que esses agricultores “consultassem a consciência” sobre se tiveram ganhos maiores durante os 13 anos de governo do PT ou agora. “Eu não tenho tempo para ter ódio, porque a pessoa fica com azia.”

No IFF, outro ato composto por homens seguidores do deputado Jair Bolsonaro aguardava a comitiva. A reportagem tentou fazer entrevistas para saber o que pensavam, mas se recusaram a falar. Questionados sobre gestos de agressividade inclusive contra colegas, um deles disse: “Apoia o PT, tem de ser xingado mesmo”. Os outros concordaram. A reportagem insistiu querendo saber o que queriam fazer ali, e: “Nada. Estamos aqui pra xingar mesmo esses vagabundos”. E por que acham que são vagabundos? “Têm cara, olha esses bêbados, esses barrigas d’água.”


Depois de muitas tentativas, o estudante Jadriel Fountoura, de 20 anos, concordou em falar. Filho de agricultores em Paraíso do Sul, se diz preocupado com a situação e diz que é preciso mudar, “não dá pra ficar só PT”. Apesar da insatisfação, afirma fazer três cursos no IFF – Técnico em Agricultura, em Zootecnia e Licenciatura em Ciências Biológicas. Está há três anos no instituto e calcula que vai ficar mais quatro: “Eu amo a escola, a estrutura é boa, os professores são excelentes”, avalia o aluno, com fala singela e lamentando ter sido “agredido” e “impedido de ter acesso às refeições” no dia de hoje.

Encerrada a gravação, Jadriel se juntou ao grupo de ruralistas que fazia um protesto agressivo, com objetivo de impedir a passagem da caravana. Uma vez posicionado em seu habitat, despiu-se do tom singelo da entrevista e ergueu o dedo médio para a reportagem.


Depoimentos de Jadriel, Aline e Cassandra: contradições e contrastes:



A aluna do curso de Zootecnia Aline Milbradt de Vargas, de 24 anos, estava indignada com os xingamentos vindos do grupo de rapazes bolsonaristas. “A gente viu ali que tem muita agressividade. Fomos chamados de vagabundos. E eu posso dizer que represento as pessoas que estão aqui. Meus pais me criaram com dificuldade e nunca me deixaram desistir. E seu eu estou aqui é graças ao Enem, graças às bolsas. Estudo durante o dia e trabalho no final de semana para me manter. Não sou vagabunda. Estou construindo meu futuro para melhorar o Brasil”, rebateu.

A família de Aline é de Cacequi, a 33 quilômetros de São Vicente do Sul. A mãe é professora da rede municipal e o pai trabalha em serviços gerais. “Minha família não é de baixa renda, mas meus pais me criaram com dificuldades. Minha mãe vendia salgados na faculdade para pagar a mensalidade. Hoje eu vejo que tenho muito mais oportunidade do que ela teve. Muitas pessoas não valorizam isso. Fui criado com exemplos de luta, de garra, e mantenho isso em mim. Mas agradeço o apoio que tem sido dado as todos os estudantes de institutos federais”, diz a estudante.

Para ela, é muito importante a visita de dois ex-presidentes. “Não basta tu falar de lá, tem de vir conhecer a realidade, a cultura, ouvir o que as pessoas têm para falar. Infelizmente tudo tem lado bom e lado ruim. Tem as pessoas que não concordam comigo, e eu respeito a opinião. E quero ser respeitada.”


Sua colega Cassandra Medeiros Carames, 22 anos, também de Cacequi, afirma não ser nem contra, nem a favor da presença da caravana, e não apoiar nem um lado, nem outro. Mas afirma ser importante reconhecer. “Quer dizer, a gente não pode ser totalmente contra, porque graças ao governo Lula a gente teve as instituições federais. Então a gente não pode ser bem contra…”, dizendo que nem por isso é “bem a favor”.

Cassandra evita se posicionar sobre política mas é, enfim, categórica ao avaliar como “muito crítica” a atual situação do país. “Não gosto do Temer, tenho pavor do Temer”, diz, em tom de desencanto com a política, dizendo que, como cidadã, faz sua parte votando por obrigação. “Não tenho nada contra política, nem a favor, não sou fanática, digamos assim”, explica. Mas considera importante que as pessoas conheçam os projetos que mais atendem os interesses dos cidadãos quando estão diante de um cenário eleitoral. Hoje, acredita, votaria branco ou nulo. Mas admite: sem o governo Lula não existiria esse instituto federal, e sem o IFF São Vicente do Sul seria um “grande nada“.

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