Mensagens comprovam que o coronel Lima atuou como intermediário de Temer


Texto de Hugo Marques e Daniel Pereira da Veja.


Investigados no inquérito que apura se houve pagamento de propina na edição de um decreto sobre o setor de portos, o presidente Michel Temer e o coronel João Baptista Lima Filho, amigos há mais de três décadas, declaram-se inocentes e perseguidos por adversários. 

Temer diz que o cerco judicial ao coronel pretende desestabilizar seu governo, e, por isso, seus assessores ameaçam até pedir o impeachment do relator do caso, o ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF). Já o coronel afirma que nunca recebeu propina e nega ser laranja do presidente — os dois, segundo ele, teriam apenas uma relação de amizade, uma “coisa pura”, sem “outros interesses”.

As mensagens que ilustram esta reportagem comprovam que a relação entre Temer e Lima foi além disso. Mostram como o coronel exerceu — em pelo menos um caso — o papel de intermediário entre Temer e um dos maiores grupos empresariais da área portuária. 


Revelam que Lima, sem ser funcionário público nem mesmo assessor de Temer, abriu as portas do governo a interesses privados e fez questão de informar o presidente do serviço prestado. O diálogo não traz o desfecho da história, mas o grupo empresarial ajudado pelo coronel teve sua demanda atendida por um apadrinhado de Temer no governo. Coisa na casa do bilhão de reais.

VEJA teve acesso a dez mensagens encontradas no celular do coronel, cujo sigilo telefônico e telemático foi quebrado por decisão do ministro Barroso, conforme revelou na semana passada o jornal O Globo. Nove delas foram trocadas com Gonçalo Borges Torrealba, um dos donos do Grupo Libra, que tem atuação destacada no Porto de Santos, área sob forte influência política de Temer desde o século passado. Durante três dias, o coronel Lima e Torrealba tentam marcar uma audiência para o empresário. 

Na madrugada de 12 de agosto de 2015, à 0h44, o coronel finalmente dá a boa-nova: “O encontro foi agendado para às 12hs (sic), na Secretaria”. Meia hora depois de confirmar a audiência a Torrealba, o coronel, à 1h13 do mesmo dia 12, informa o então vice-presidente da República: “Transmiti o recado. Encontro marcado para as 12hs (sic)”. O coronel cumprira a sua missão. 


As mensagens não explicitam qual era a secretaria em questão, mas há uma boa pista à disposição das autoridades. Em junho de 2015, dois meses antes da troca de mensagens entre o coronel Lima, Torrealba e Temer, o Grupo Libra pediu à Secretaria de Portos a prorrogação de seus contratos de concessão no Porto de Santos.

Naquele agosto de 2015, esse pedido continuava sob a análise da área técnica da secretaria. Depois da audiência agendada pelo coronel, o processo deslanchou. Em 3 de setembro de 2015, a Secretaria de Portos finalmente prorrogou os contratos do Grupo Libra por vinte anos, até 2035. 

A decisão, publicada no Diário Oficial da União, foi assinada pelo então comandante da secretaria, Edinho Araújo, que chegou ao cargo indicado por Temer. Foi a consagração de uma parceria longeva e profícua entre o Grupo Libra e o escrete político comandado pelo atual presidente da República.

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