Reinaldo Azevedo acaba com Doria, “vitória padrão Saddam Hussein em prévias”


POR REINALDO AZEVEDO - Geraldo Alckmin e João Doria: em 2018, não tem vez o “olhos nos olhos”. 


Só a cor da gravata coincide desta feita João Doria, prefeito de São Paulo, venceu as prévias para ser o candidato do PSDB ao governo de São Paulo com um desempenho de quase fazer inveja ao Saddam Hussein dos velhos tempos: obteve 80,02% dos votos. Floriano Pesaro alcançou 7,31%; Luiz Felipe D’Ávila, 6,59%, e José Aníbal, 5,98%. Isso quer dizer que os tucanos saem unidos para a disputa? Resposta: não! O partido está aos pedaços em São Paulo. Se será bem-sucedido, o povo irá dizer.

Fragilidade um: cadê o esquerdista de plantão?

A candidatura, desta feita, apresenta algumas óbvias fragilidades. Nada que não possa ser corrigido se houver prudência. A julgar por uma entrevista do prefeito ao Estadão, será preciso ajustar o tom. A personagem política do “homem cordial” criada em 2016 estava ausente dessa conversa com o jornal. Suas respostas deixam entrever algumas estratégias de campanha. Ouso dizer que terão de ser revistas.

Vamos lá. Doria tinha uma facilidade em 2016: a gestão do petista Fernando Haddad, que era muito mal avaliada. Mais ainda: o PT estava por baixo — saiu devastado daquela disputa municipal. A Lava Jato ainda não tinha feito a sua investida contra toda a política e todos os políticos, o que resultou na ressuscitação eleitoral do PT e de Lula, que só não se elegerá presidente porque a Justiça não permitirá que seja candidato. Assim, a reputação do PT vivia o seu pior momento, e o prefeito que disputava a reeleição mal conseguia defender a própria gestão.


Foi relativamente fácil para Doria encaixar o discurso do “gestor não-politico” — conversa que sempre repudiei porque não gosto do apelo que políticos fazem à não-política —, contra as lambanças do PT. Mais: o mote também pegava carona na prática mais deletéria da Lava Jato. Sim, o futuro candidato a governador tem agora uma outra facilidade conjuntural: não existe um candidato forte de esquerda. O PT se reconstruiu nacionalmente com o Lula de sempre — TERÁ DE INVENTAR UM OUTRO NOME OU SE JUNTAR COM CIRO GOMES —, mas não se refez do golpe em São Paulo. Qualquer candidato viável no terreno antipetista conta com essa facilidade.

Mas isso também é uma dificuldade. Contra quem Doria dirigirá sua invectivas ideológicas na esfera estadual? Em 2016, lá estava o prefeito do PT. E não custa lembrar que, com alguma frequência, o então candidato do PSDB ignorava o próprio Haddad para atacar Lula. Também isso não convém fazer agora, esteja o petista preso ou não. Seria uma estratégia que nem poderia ser tachada de “errada” porque absolutamente sem propósito.

Fragilidade dois: o fator Mário França

A entrevista ao Estado deixa entrever a suspeita de que o ainda prefeito e futuro candidato a governador escolheu o seu “esquerdista” da hora: Márcio Franca, vice-governador (PSB), aliado de Alckmin e seu candidato “in pectore” ao governo. Falando sobre França, afirmou:


“Quem faz associação com PDT, PCdoB e partidos de esquerda não é de centro-esquerda, mas de esquerda. Nada contra, mas o campo do PSB é a esquerda. O PSB não faz essa aliança apenas aqui. O PSB apoia ostensivamente o PT, PDT, PCdoB, PSOL, Rede, PSTU e partidos de extrema-esquerda nas regiões Norte e Nordeste do País. Essa é a orientação explicita da sua direção. Estou em outro campo.”

Chamar Márcio França de “esquerdista” vai além da licença poética. É “fake news”, embora, com efeito, o PSB, partido ao qual pertence o vice-governador já tenha decidido que, nacionalmente, buscara o campo da esquerda. Geraldo Alckmin, que foi padrinho da candidatura de Doria à Prefeitura, já deixou claro que França é um aliado seu. Como provável futuro candidato do PSDB ao Planalto e presidente da legenda, não vai endossar ataques ao aliado.

Mas há uma diferença grande, hoje em dia, entre Alckmin não endossar e Doria não fazer.

Fragilidade três: discurso truculento

A entrevista ao Estadão foi concedida antes da divulgação do resultado. Ainda que Doria ignorasse os números, sabia que eles teriam o que chamo de “padrão Saddam Hussein de vitória”. Há uma velha sabedoria, que ainda considero nova e eficaz porque eterna, segundo a qual é preciso ser altivo na derrota e humilde na vitória. Não sei como Doria é nas derrotas — a palavra ainda não consta de seu dicionário político e, segundo dá a entender, nem pessoal —, mas dá para ver como se comporta na vitória. Referindo-se a José Aníbal, que já presidiu o partido, foi seu líder na Câmara quatro vezes, secretário de Estado, senador, presidente do Instituto Teotônio Vilela, afirmou o seguinte:
“O PSDB já fez prévias outras vezes e as contestações dos potenciais derrotados foram exatamente as mesmas. O mesmo José Aníbal de hoje é o de 2015, que esperneou, criticou, entrou na Justiça e perdeu. José Aníbal é um perdedor contumaz. Gosta de seguir a trajetória da derrota. Paciência. (…) Não tenho obrigação de ser gentil com que é hostil. Perca com dignidade. Ele está protestando porque sabe que vai perder. Cabe a ele explicar por que acumula tantas derrotas e tanta amargura.”


O perfil que vai acima — e não tenho nenhuma especial simpatia política por Aníbal ou vínculos pessoais de qualquer natureza — não é o de um derrotado, ainda que tenha sido por duas vezes um dos perdedores em prévias contra Doria. Vale dizer: o fato de o futuro candidato a governador vencer alguém não faz dessa pessoa uma “derrotada contumaz”. A qualificação não é compatível com o homem que liderou o PSDB na Câmara das reformas implementadas por FHC.

Fragilidade quatro: palavra empenhada

Outra fragilidade está no óbvio descumprimento da palavra. Afirmou ao eleitor paulistano que ficaria quatro anos na Prefeitura. Vai abandoná-la depois de um ano e quatro meses. Ele tenta explicar:
“Você não vota em um indivíduo, mas no conjunto de valores e programas. Os eleitores não ficarão frustrados com Bruno Covas. Com 37 anos, ele é PSDB como eu. Quem votou no PSDB não terá a frustração de ter um prefeito de outro partido. Em São Paulo, com São Paulo e para São Paulo.”

Vamos ver se cola. Noto, de saída, que a sua fórmula não pode ser aplicada ao próprio Alckmin, não? Afinal, os paulistas votaram num tucano e terão como governador, por um tempo ao menos, um político do PSB. A renúncia também desmente o discurso do “gestor” que não é político. Duas perguntas e duas respostas dão o que pensar — se não houve excesso de edição que lhes tenha distorcido o sentido. Leiam:

Vai voltar a usar o mote do não-político?

Vamos usar o mote que for necessário.
Depois de renunciar à Prefeitura para disputar o governo, acredita que as pessoas vão acreditar que o senhor não é político?

Vamos estudar isso. Avaliar. Estou na política.

Fica difícil não entender que a política consiste, então, em falar o que for necessário, tenha essa fala compromisso ou não com a verdade. Tudo indica, no entanto, que sabe que não poderá, desta feita, se dizer um “não-político” — discurso que sempre repudiei, venha de Doria, Marina ou Luciano Huck… Afinal, inexiste não-político que empenha a palavra, renuncia a ela e à Prefeitura e disputa um cargo maior, tendo como vice um nome — Gilberto Kassab — que é o símbolo do que se costuma chamar por aí de “político tradicional”.


Elemento-surpresa

Não há, como se nota, um esquerdista de peso com quem concorrer — e é claro que França não vai cumprir esse papel —, mas o ainda prefeito pode vir a ter problemas se alguém do mesmo campo ideológico, que também investe na imagem do gestor operoso, resolver realmente se candidatar: refiro-me ao empresário Paulo Skaf (PMDB), presidente da Fiesp. Ainda que o PMDB não venha a fazer parte do arco de alianças da candidatura de Alckimin à Presidência, também ele não seria um nome hostil ao ainda governador de São Paulo.

Pontos fortes

Mas nada há, no momento, favorável a Doria, Reinaldo? Claro que sim! Embora a sua curta gestão deixe muita coisa pelo caminho, ele tem uma razoável folha de serviços ao menos engatilhados na cidade. Pesquisas eleitorais lhe dão uma dianteira folgada, numa campanha na TV que será, como virou lei, bastante curta. Ousaria mesmo dizer que quanto menos entrevistas ele conceder, como essa ao Estadão (nesse tom ao menos), melhor! Dados os muitos fios desencapados que o cercam, quanto menos se mexer, melhor! A inércia conta a seu favor.,

A questão é saber se seus adversários, ao perceberem que a inercia é sua (deles) adversária, vão permitir a pasmaceira.

Finalmente

E Alckmin em meio a isso tudo? Preferia que “João Trabalhador” ficasse à frente da Prefeitura. A verdade é que, a despeito das declarações públicas, há tempos eles não frequentam a mesma missa. Até porque há um dado que, em parte, não depende nem da vontade de Doria: se, por qualquer razão, Alckmin seguir empacado nas pesquisas, será difícil conter o alarido interno em favor de… “João Trabalhador”.

Notem: o atual governador crescer ou não nas pesquisas independe da vontade do ainda prefeito. Mas ser Doria uma alternativa também para esse caso é, por óbvio, um ato de vontade. E é nesse contexto que devem ser lidas estas perguntas e estas respostas:

O senhor disse que não precisa do aval do Alckmin para ser candidato a governador…

Ele mesmo disse isso. Essa não é uma frase hostil ao governador. O governador tem dito que é o PSDB que defende o candidato.

O senhor disse em 2017 que seria candidato a governador se Alckmin pedisse. Ele pediu em algum momento?

O governador faz parte do PSDB. O partido não tem dono. Não há uma decisão de um cacique, nem ele se intitula como tal. Alckmin é um democrata que respeita as decisões partidárias.

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